Por João Ruela de Sousa

É um contentamento quando perante uma peça de arte se sente um calorzinho interior que se transforma e se conclui num sorriso prazeroso. A pior parte vem depois… O questionamento e a tentativa de racionalizar o porquê de tal fenômeno acontecer e a frustração de não conseguir atingir explicação satisfatória.

A estética na arquitetura é uma disciplina complexa, recompensadora, mas paradoxalmente ingrata. Será um projeto que não passou do papel uma obra de arte? Como se pode apreciar realmente uma obra de arquitetura sem percorrer o espaço e sem ver a luz a definir asceticamente os ambientes? E o que será de um sentimento gerado ao ver um esboço de Corbusier? Será esse sentimento errado ou desprovido de qualquer razão? Em outras artes como a pintura ou a escultura, a distância entre a ideia e o produto final é razoavelmente curta. Quer estejamos a avaliar obras de arte com processos distintos (realistas ou abstratos, intuitivos ou racionais), o caminho entre o cérebro do artista e o “pincel”, não terá à partida grandes obstáculos externos. A “atormentada” mente artística poderá até gerar várias barreiras e solavancos, mas são parte do processo sensitivo que o artista terá de suportar e não propriamente condicionalismos externos. Em arquitetura são muitos os fatores externos a condicionar a obra. Separemos os fatores “normais” daqueles que são construídos autoritariamente: Os avanços tecnológicos fazem parte do processo criativo. Permitem ao artista experimentar novas soluções e abrir portas à imaginação. Na escultura criaram-se goivas, limas e impressoras 3D. Na pintura, a litografia ganhou espaço, e as telas variam consoante o objetivo ou simplesmente com a disponibilidade. Em arquitetura o terreno pode ser inclinado, esguio, maior ou menor; a obra pode contemplar os mais variados materiais e as mais variadas soluções construtivas, mas a grande diferença são as regulações e normas que têm de ser obrigatoriamente cumpridas. Ainda bem que não existe um PDM da pintura, mas ainda bem que existe em arquitetura; no entanto é importante para a perceção artística, estar consciente destas mesmas limitações que o arquiteto sofre durante o longo processo que é construir uma obra. A arte distingue-se do ofício; a primeira é livre, a outra é remunerada. Olha-se a primeira como uma ocupação que é agradável por si própria; olha-se a segunda enquanto trabalho, isto é, uma ocupação que por si só é penosa.

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